sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dunga jogava muito, mas guarda grande distância do Panteão dos Craques

Agora o Futeboletras tem o seu Túnel do Tempo. Trata-se de uma seção aberta aqui do lado direito do blog, que apresentará vídeos com gols, defesas e lances marcantes na história do futebol mundial. Na medida do possível, todo dia haverá um vídeo que nos remeterá ao passado, remoto ou não, do futebol: um belo gol, uma defesa espetacular, uma jogada de cinema, um tira-teima.

O vídeo que inaugura a seção apresenta os melhores momentos do jogo da Seleção Brasileira contra a Seleção de Camarões, durante a disputa da Copa do Mundo de 1994, nos EUA, vencido pelos canarinhos pelo placar de 3x0. A escolha deste vídeo tem o propósito de ilustrar o comentário que faço a seguir sobre a performance do atual técnico da Seleção em seus tempos de jogador. O assunto me veio à tona depois de ter lido uma matéria publicada por esses dias no site Globoesporte.com (para ler, clique aqui), com uma entrevista do ex-técnico da seleção inglesa, o sueco Sven-Goran Eriksson. Em sua declaração mais polêmica, Eriksson elogia Dunga, que foi um de seus comandados quando treinava o time da Fiorentina, como um grande jogador, cujo desempenho, em sua opinião, foi tão bom quanto ao do ex-jogador e craque Paulo Roberto Falcão, outro de seus comandados no tempo que era técnico da Roma.

Quem me enviou o link é um admirador confesso de Dunga, tanto quando era jogador quanto em sua atual função de técnico do selecionado nacional. Imagino sua alegria lendo a entrevista e já ansioso para apresentá-la como uma prova de que tem a razão diante dos que considera os detratores do Dunga jogador e do Dunga treinador. O que dizer depois da comparação feita pelo Sr. Ericsson, justamente o cara que treinou Dunga e Falcão, quando jogadores? Pelo visto, o sueco não deu uma opinião, mas sim um atestado e ponto final.

Não, não, não é bem assim. Não tem nada de atestado, é sim uma opinião, que como qualquer outra merece todo o nosso respeito. Sobre ela, A MINHA OPINIÃO concorda com a primeira parte, aquela que considera que Dunga foi um dos grandes jogadores do futebol brasileiro, que, infelizmente, não é corroborada por grande parte dos analistas de futebol no Brasil. Vinte anos depois daquela derrota do Brasil para a Argentina de Maradona e Caniggia, essa gente ainda faz ecoar as tenebrosas trombetas da chamada “Era Dunga”. Já passou da hora de se trocar o disco. Assistam replay de jogos passados nas duas décadas que Dunga jogou (anos 1980 e 1990), inclusive o Brasil e Argentina da Copa de 1990, acionem os mecanismos de busca do Youtube para encontrar vídeos como esse dos melhores momentos de Brasil e Camarões pela Copa de 1994. Não há como negar que, em campo, Dunga tinha um bom passe, uma competência admirável para marcar, roubando a bola e iniciando contra-ataques mortais, e, além de tudo, conseguia aliar seu bom futebol à coragem, valentia, garra e liderança. Tudo isso, fez dele um vencedor, mesmo que a opinião daquilo que chamamos de crítica especializada não reconheça isso. Poucos no futebol brasileiro reuniam ou reúnem as qualidades que ele tinha. Por isso, em campo, foi um vencedor e deveria ser referência para as novas gerações do futebol.

Apesar de pensar dessa forma, não posso concordar com a segunda parte da opinião do Sr. Ericksson. Uma coisa é reconhecer as qualidades e a eficiência do futebol de Dunga e seu importante papel nas conquistas da Seleção Brasileira e dos clubes que defendeu; mas daí compará-lo com craques da estirpe de um Falcão, aí é brincar com os fatos, porque, definitivamente, Dunga não foi craque com a bola no pé. Você pode até questionar o que é um craque, mas para isso será preciso alterar um consenso que vigora desde sempre no futebol mundial: craque é o jogador excepcional, dotado de genialidade, com uma técnica refinada, habilidade acima do comum no trato com a bola. É baseado nesta definição que jogadores como Pelé, Maradona, Cruyff, Zico, Rivelino, Romário, Beckenbauer, Puskas, Falcão, Ademir da Guia, Tostão, Garrincha, Riva, Zidane, Platini, Matthaus, Pedro Rocha, Francescoli e alguns outros estão lá no Panteão dos Craques. Infelizmente, Dunga não conseguiu alcançar um nível que o colocasse na história do futebol ao lado desses gênios da bola, porque, contrariando o Sr. Ericksson, suas diferenças técnicas em relação a Paulo Roberto Falcão são gritantes. Não é o fato de um ser campeão do mundo e outro não que essas diferenças são apagadas. A história do futebol está cheia de casos de craques que, infelizmente, não tiveram o gostinho de levantar uma Copa do Mundo, mas nem por isso deixaram de ser craques e reconhecidos como tais: Puskas, Zico, Platini, Cruyff, Di Stefano, só para citar alguns.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A falácia do hexacampeonato do Flamengo

Depois da brilhante conquista do Brasileirão de 2009, pode o Flamengo ser considerado hexacampeão brasileiro? Eis uma pergunta que deveria ser simplesmente respondida com um não, uma vez que ser hexa pressupõe ganhar um campeonato por seis vezes consecutivas, o que não é o caso do Flamengo. Entretanto, com a boçalidade que vem contaminando nossas arquibancadas e as redações de esporte dos principais jornais de nossa imprensa escrita e eletrônica, a resposta requer maior elaboração. Vamos lá, em duas partes.
Antes um esclarecimento, este post não tem nenhuma intenção de desvalorizar e secundarizar os títulos conquistados pelo Flamengo e por outros clubes ou seleções nacionais aqui citadas. Busco simplesmente contribuir para uma melhor compreensão dessa questão que há muito tempo é polêmica no futebol brasileiro.
Pra ser hexa é preciso ser penta
Em primeiro lugar, na conta dos supostos seis títulos brasileiros conquistados pelo Flamengo, tá faltando uma taça, a de 1987. Esta, ao invés de na Gávea se encontra na Ilha do Retiro, em Recife, sob a guarda de outro rubro-negro, o Sport Club Recife. E está lá porque o clube pernambucano superou o Guarani de Campinas em dois jogos finais, depois que, contrariando o regulamento adotado para aquela edição do Campeonato Brasileiro, Flamengo e Internacional, campeão e vice do módulo verde, se recusaram a disputar as semifinais contra o campeão e o vice do módulo amarelo (Sport e Guarani, respectivamente). O título do Sport foi confirmado pela entidade oficial do futebol no Brasil, a CBF, à qual todos os clubes profissionais estão submetidos. Além do carimbo da CBF, é bom que se diga que a Justiça Desportiva e a Justiça Comum (TRF/5ª Região) se pronunciaram a favor do Sport. Desde então, não há mais o que se discutir sobre quem tem a razão neste caso, é perda de tempo.
A menos que agora passemos a dar crédito aos números, às estatísticas e às súmulas feitas ao bel prazer por qualquer um, como já são os casos do autoproclamado hexacampeonato do Flamengo e dos mil gols de Romário, que inclui, pasmem!, os que ele fez nas categorias dente-de-leite, fraldinha e em treinos, avalizados pela imprensa esportiva e seus principais colunistas.
Mas, por coerência, o também autoproclamado octacampeonato brasileiro do Santos Futebol Clube — tá lá no site do clube praiano —, que juntou no mesmo saco os títulos da Taça Brasil conquistados em sequência entre 1961 e 1965, do Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1968 e dos Campeonatos Brasileiros de 2002 e 2004, deveria ser reconhecido. Por extensão, Palmeiras e Fluminense seriam aceitos como campeões mundiais de clube, já que os mesmos consideram as conquistas de um torneio — a Copa Rio, disputada em 1951 e 1952 — que reuniu alguns clubes da Europa e da América do Sul como um mundial interclubes, mesmo sem a chancela da FIFA.
Como se vê, não dá para levar a sério o que cada clube entende como a verdade do futebol. É por isso que existe uma CBF, uma Conmebol, uma UEFA, uma FIFA, para por ordem em suas respectivas jurisdições futebolísticas. Que este ou aquele clube busque o reconhecimento de suas glórias ou pseudo-glórias, aqui é um direito que não se questiona. Mas enquanto isso não vem não dar pra sair por aí gritando aos quatro ventos que é campeão disso ou daquilo. Portanto, com o título brasileiro conquistado em 2009 o Flamengo não passou a ser hexacampeão pela simples razão de, até aquela data, não ter sido pentacampeão.
Prá ser hexa é preciso ser campeão seis vezes seguidas
Numa conclusão rápida, alguns mais apressadinhos logo diriam: — Ah, tá! Se não foi hexa, então o Brasileirão de 2009 representou o pentacampeonato para o clube. Isso não há como contestar, pois, afinal, além do ano passado, o Mengão foi campeão em 1980, 1982, 1983 e 1992.
Ledo engano, e aqui começa a segunda parte de minha argumentação. Pra ser hexa não só basta ser penta como também é preciso que os títulos ocorram por seis edições seguidas de um mesmo campeonato. Antes de ser banalizado, o uso no futebol e em outros esportes de adjetivos como bi, tri, tetra, penta, hexa, hepta, octa, enea, decacampeão tinha justamente a função de laurear as conquistas consecutivas de títulos, campeonato atrás de campeonato, torneio atrás de torneio, I-NIN-TER-RUP-TA-MEN-TE.
Uma coisa é ser campeão ene vezes em anos alternados; bem diferente de ser campeão ene vezes por anos seguidos, que assume ares de façanha, de hegemonia sobre os rivais. Os que não percebem diferença alguma entre as situações, tal como as torcidas mais apaixonadas e a imprensa em geral, com raras exceções, saiem por aí gritando que São Paulo e Flamengo — este, mesmo só tendo cinco títulos — são hexacampeões brasileiros; que Palmeiras, Corinthians e Vasco são tetra e que o Internacional de Porto Alegre é tri. Em âmbito mundial, em coro, saúdam a nossa seleção de futebol como a única “pentacampeã” do mundo; no plano abaixo do Brasil, viriam a Itália com seu “tetracampeonato” e a Alemanha “tricampeã”. Por esta lógica, no cenário sulamericano, a Argentina, por seus 15 títulos ao longo da história da Copa América, deveria ser vista como pentadecacampeão, denominação que só vamos popularizar em solo pátrio quando a Seleção Brasileira chegar a tantas conquistas no continente, algo que ainda muito distante.
Só que não é bem assim. Teria o mesmo valor a conquista por cinco vezes do título brasileiro num período de tempo de trinta anos, como foi o Flamengo, de uma conquista por três anos em sequência desse mesmo título, como foi recentemente o São Paulo? É óbvio que não. É bem possível que, nas próximas duas décadas, o rubro-negro carioca e o tricolor paulista conquistem o campeonato nacional por várias vezes, porém, por dois, três ou mais anos em série será bem mais difícil. Para um clube, a conquista de um título por vários anos seguidos, a depender do grau de dificuldade do campeonato, sempre será a consagração de uma hegemonia. É por isso que essas glórias são especialmente denominadas de bi, tri, tetra, penta, hexacampeonato etc.
Com esse entendimento, não há dúvida de que a maior façanha do futebol brasileiro foi ter sido bicampeão do mundo em 1958 e em 1962. Antes, tal proeza somente havia sido alcançada pela Seleção Uruguaia, bicampeã olímpica em 1924 e 1928 — tempo em que o futebol numa Olimpíada tinha o valor de uma Copa do Mundo —, e pela Seleção Italiana, bicampeã do mundo em 1934 e 1938. Depois, jamais uma seleção ganhou duas edições consecutivas de uma copa. Em se tratando dos clubes, no Brasil, como já dito, apenas o São Paulo conseguiu o feito de se sagrar campeão três vezes seguidas, em 2006, 2007 e 2008. Sem dúvida, é o tricolor paulista o autêntico e único tricampeão brasileiro. Já o Flamengo, em 1984, chegou perto de ser tri — já que na época defendia seu bicampeonato conquistado em 1982 e 1983 —, mas não passou de um honroso 5º lugar. Resta o consolo de ser, depois do São Paulo, o segundo lugar no ranking de títulos do Campeonato Brasileiro.

terça-feira, 2 de março de 2010

Já não se fazem copas do mundo como antigamente

A seleção de Dunga e outras tantas classificadas para a Copa do Mundo da África do Sul entram em campo nesta terça-feira — o escrete canarinho joga contra a Irlanda, em Londres — para seu apronto final antes da estréia no torneio. Apronto final? É estranho, mais é isso mesmo, os técnicos destas seleções terão hoje a última oportunidade — a única nos cinco meses que antecedem a Copa — para avaliar seus jogadores com vistas à convocação final em maio próximo. Mas sendo a Copa do Mundo o maior espetáculo do futebol mundial, não deveria a Fifa garantir aos selecionados um tempo razoável para uma preparação adequada? Deveria, mas já não se fazem copas do mundo como antigamente. De fato, em tempos outrora, esse torneio era do mais alto nível, superior a qualquer outra competição futebolística, que confrontava autênticas seleções de futebol de diferentes escolas e reuniam os melhores jogadores do planeta. Por conta da elevada competitividade, a cada quatro anos o futebol se renovava em termos técnicos e táticos. Para chegar a essa disputa, às seleções nacionais eram assegurados todos os meios possíveis para uma boa preparação, incluindo infra-estrutura de treinamentos, tempo razoável de concentração, aclimatação adequada ao local dos jogos e disputa de amistosos.
Para se ter uma idéia, nos cinco meses que antecederam a Copa do Mundo de 1970, a Seleção Brasileira disputou sete amistosos oficiais contra outras seleções. Já para a Copa da Alemanha, em 1974, o escrete canarinho testou sua força em nove jogos amistosos entre fevereiro e junho daquele ano. Em 1978, o Brasil fez apenas cinco jogos oficiais antes da Copa da Argentina, mas, em compensação, jogou mais oito vezes contra alguns combinados estaduais e clubes europeus. Para a Copa da Espanha, em 1982, a Seleção Brasileira realizou seis amistosos oficiais, um a menos que a preparação reservou para a disputa da copa seguinte, em 1986, no México. É interessante observar que, além dos amistosos, o tempo em que as seleções iniciavam sua concentração até o jogo de estréia no torneio mundial era de, no mínimo, trinta dias.
Porém, os anos que se sucederam à Copa de 1986 trouxeram mudanças significativas na relação entre clubes e seleções nacionais, pelo menos na Europa. Os clubes europeus, com seus investimentos astronômicos em jogadores de alto nível, começaram a se impor, negando a cessão de seus atletas ao bel prazer das federações de futebol. Com isso, os campeonatos nacionais e continentais passaram a ser mais valorizados e as datas reservadas às seleções nacionais foram reduzidas. As mudanças na Europa não tardaram para interferir na preparação das principais seleções da América do Sul, uma vez que seus melhores jogadores eram contratados pelos clubes do Velho Continente, obrigando as federações locais a negociar com seus dirigentes a liberação dos atletas convocados.
As mudanças foram já sentidas na Copa do Mundo da Itália, em 1990, quando as seleções classificadas pouco tempo tiveram para se prepararem adequadamente para a disputa. Depois da confirmação da vaga nas Eliminatórias, até a sua estréia a Seleção Brasileira jogou apenas três amistosos e só conseguiu reunir todos os convocados quinze dias antes do primeiro jogo. Nas copas seguintes não foi diferente. Os amistosos pré-copa só aconteciam em datas programadas pela Fifa, a menos que as seleções optassem por convocar apenas jogadores dos clubes nativos. Assim, sem considerar partidas não-oficiais disputadas já na fase de preparação final para as copas e aquelas em que o treinador estava impossibilitado de colocar em campo seu time titular, em 1994 e 1998 o Brasil disputou dois amistosos. Para as copas de 2002, 2006 e esta agora na África do Sul a Fifa separou apenas uma data para as seleções.
A falta de uma preparação adequada das seleções repercutiu diretamente na qualidade das Copas do Mundo disputadas depois de 1986. De lá para cá, foram poucas as seleções que se apresentaram como verdadeiros times de futebol; os melhores jogadores, depois de estafante temporada por seus clubes, chegavam baleados e pouco motivados para disputar o torneio. Mesmo entre as seleções campeãs poucos foram os destaques individuais e nenhuma contribuiu para a evolução técnica e tática do futebol. Por incrível que possa parecer, em vinte anos, apenas três jogadores fizeram jus a um lugar no panteão mundial dos craques de bola: Romário, Zidane e Ronaldo (o Fenômeno).
Para quem espera alguma coisa em termos de futebol nesta Copa da África do Sul, cuidado para não passar raiva, pois a tendência é que a competição seja tão paupérrima quanto foram as últimas edições. Se alguém duvida, preste atenção então em algumas seleções que jogam hoje, a começar pela seleção de Dunga, que ocupa as primeiras posições do ranking da Fifa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Papai Joel, o espanta-crise dos clubes cariocas

Este blog tem apenas duas semanas no ar e entre os poucos posts publicados até então, Joel Santana, ou simplesmente Papai Joel ou, como ele gosta, Joel Prancheta, é assunto aqui pela segunda vez. Mas não mais que nos jornais impressos e sites de esportes. Na semana passada todo dia ele foi matéria, com ou sem manchete, e a cada hora tinha alguma chamada na internet sobre o que ele falou ou não falou, fez ou deixou de fazer. Na terça, liderando uma comitiva do alvinegro foi ao encontro de Nilton Santos, um dos maiores ídolos da história do Botafogo, para lhe levar o troféu de campeão da Taça Guanabara. Na sexta, baixou na Academia Brasileira de Letras para almoçar com os imortais. Depois das homenagens que recebeu, anunciou, emocionado, que vai virar livro.
É impressionante! Até aqui, o Botafogo foi campeão apenas de um turno de um torneio estadual, mas a festa pelo título ainda não terminou, parece até que a Taça Guanabara tem o mesmo valor de uma Taça Libertadores ou de um Campeonato Brasileiro. Bom, que fazer? Só nos resta reconhecer que o homem é muito bom de marketing, talvez mais que no comando de um time de futebol.
Já havia dito aqui que Joel Santana, nessa sua volta ao Botafogo, tem demonstrado muita competência. Em pouquíssimo tempo conseguiu dar alma e um mínimo de organização tática para um plantel limitado tecnicamente e com os brios feridos depois da goleada acachapante sofrida para o Vasco da Gama. Só que isso por si só não faz dele um gênio, um estrategista, um dos grandes técnicos do futebol brasileiro, como vem sendo elogiado. Muito longe disso.
A carreira de Joel Santana como técnico sequer é marcada por grandes títulos. Ganhou quatro vezes o Campeonato Baiano, que todos sabem não ser grande coisa, e seis vezes o Campeonato Carioca, que há muito perdeu seu glamour e valor em termos técnicos. Nessa meia dúzia de títulos cariocas, chama a atenção o fato de ele ter sido campeão pelos quatro grandes clubes do Rio. Mas a Joel falta um grande título de expressão nacional ou internacional, não necessariamente por um clube fora de seu habitat natural, o Rio de Janeiro. Até que em seu currículo consta um título de campeão brasileiro — a Copa João Havelange — e outro da Copa Mercosul, ambos pelo Vasco em 2000. Mas não é bem assim. Essas conquistas deveriam ter sido assinadas por Osvaldo de Oliveira, técnico que efetivamente montou o time campeão. No entanto, já próximo ao final da temporada, Osvaldo se desentendeu com o então manda-chuva do Vasco, Eurico Miranda. Foi nessa circunstância que Joel Santana desembarcou em São Januário. Sua estréia foi na partida final da Copa Mercosul, quando os vascaínos, comandados por Romário e os Juninhos Paulista e Pernambucano, viraram sensacionalmente para cima do Palmeiras, que havia aberto uma vantagem de três gols a zero. Já no Brasileirão, Joel assumiu o Vasco a partir do segundo jogo das semifinais contra o Cruzeiro, confirmando o título em duas partidas contra o São Caetano.
Papai Joel já teve algumas oportunidades para fugir do rótulo de técnico de um estado só. Em 1997, foi contratado pelo Corinthians. Com um desempenho pífio, ficou à frente do time em apenas 13 partidas e foi demitido. Em 2004, assumiu o Internacional e novamente fracassou, sendo dispensado depois de 16 partidas. Em 2008, foi convidado para dirigir a seleção da África do Sul, país anfitrião da próxima Copa do Mundo, neste ano. Foram 27 jogos e apenas 10 vitórias. Sorte que os sulafricanos não precisaram disputar o torneio eliminatório para a copa.
Com mais este fracasso, e cabisbaixo, Joel voltou ao Brasil e ficou de stand-by aguardando um novo convite para retomar a carreira, de preferência vindo de um clube em situação de desespero, com jogadores desmotivados e de qualidade mediana para baixo. É que Papai Joel, nos últimos anos, virou um especialista em recuperar times em situação de crise.
Pensando bem, seus melhores trabalhos no futebol foram aqueles em que chegou como salvador da pátria, todos por clubes cariocas. De prancheta na mão, com muita conversa, usando técnicas informais de motivação e de agregação, adotando esquemas táticos baseados em muita marcação e sempre jogando no erro do adversário, Papai Joel está sendo muito feliz no Botafogo. Repete mais ou menos os trabalhos que desenvolveu em sua passagem pelo Fluminense em 1995 — aonde chegou ao título carioca com um time modestíssimo — e no Flamengo, em 2005 — quando foi responsável pela esplêndida reação que nas últimas nove rodadas do Campeonato Brasileiro evitou o rebaixamento do clube para a Segunda Divisão — e 2007 — ano em que comandou uma arrancada que tirou o time da zona da morte para a zona de classificação para a Libertadores em 2008.
Não sei se Joel Santana irá contratar alguém para escrever seu livro — em respeito à língua portuguesa, tomara até que contrate. Seja quem for o escritor, ele próprio ou um ghost writer, o livro ficaria muito mais interessante se focasse essa sua especialidade de resgatar autoestimas dos grandes clubes cariocas, sempre com umas pitadas de humor que bem caracteriza a figura do bom Joel. Mais do que isso, só enchendo muita lingüiça e contando muita lorota para retratar um técnico mediano do futebol brasileiro.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Luxemburgo, o supercampeão da arrogância

Vanderlei Luxemburgo é um caso à parte no futebol brasileiro. Entre os técnicos em atividade no Brasil, é o que ostenta o melhor currículo. Em quase três décadas de profissão, conquistou nada mais nada menos do que cinco títulos brasileiros, feito tão significativo que tem sido capaz de encobrir a falta de títulos internacionais ao longo de sua carreira. Conseguiu formar grandes times que primavam pela força do conjunto e comprometimento tático de seus jogadores e pelo futebol bem jogado e ofensivo. Curiosamente, Luxemburgo nunca chegou a ser uma unanimidade, um sonho de consumo do conjunto das torcidas dos grandes clubes brasileiros. É que a cada conquista deixava-se levar por uma empáfia que muitas vezes o colocava em rota de colisão com torcedores, atletas, dirigentes e imprensa esportiva, comprando polêmicas desnecessárias e improdutivas.
Não satisfeito com as glórias obtidas em campo, se envolveu com práticas que avançavam o sinal dentro do campo ético sendo alvo de graves denúncias como sonegação fiscal, falsidade ideológica e agenciador de jogadores para lucrar com a transferência destes, para as quais Luxemburgo nunca se preocupou em dar uma explicação convincente. Pelo contrário, preferiu se apoiar na desqualificação de seus denunciantes, numa imaginária inimputabilidade supostamente adquirida a partir de seus feitos como técnico e, principalmente, deixou aflorar sua marca maior: a arrogância.
No sábado, no Mineirão, após perder seu primeiro clássico estadual como técnico do Atlético Mineiro, Luxemburgo nos deu mostras dessa arrogância ao reagir com o gesto popularmente conhecido como “banana” às comemorações da torcida cruzeirense, que gritava seu nome e ironizava a torcida rival (veja o vídeo abaixo). Depois, junto a uma penca de microfones, foi se explicar: A minha reação é porque eu sou Galo hoje. O futebol dá muita volta, estou nesse negócio há muito tempo. Eles têm de entender que depois que saí daqui não ganharam mais nada. Essa que é a grande verdade”. E ainda acrescentou: “Para eles fazerem alguma sacanagem comigo, tirarem sarro comigo, eles vão ter de ganhar”.

Se tivesse um pouquinho de hombridade e compostura, Luxemburgo simplesmente ignoraria as manifestações da torcida, até porque gozações fazem parte do imenso repertório do futebol. Entretanto, fez questão de responder às provocações, não na mesma moeda, mas com o pior de sua má-educação e soberba que lhes são tão características. De sua fala deduz-se que o fato do Cruzeiro não ter conquistado nada mais de relevante após a Tríplice Coroa de 2003 (estadual, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro) se deve simplesmente porque seu comandante técnico não se chamava Vanderlei Luxemburgo.
O interessante nessa manifestação é que depois de ganhar pelo Santos o Brasileirão de 2004, tal como o Cruzeiro, Luxemburgo não alcançou mais nenhum título de vulto e, desde então, vem colecionando fracassos atrás de fracassos. Nem mesmo foi capaz de aproveitar a melhor oportunidade de sua carreira que foi a de dirigir um grande clube europeu, o Real Madrid, em 2005. É um momento de clara decadência profissional. Há chances dele se recuperar? Com certeza. Quem sou eu para colocar em dúvida essa possibilidade? Mas para tanto existe uma condição: se durante o seu sucesso sua marca foi o da empáfia, na tentativa de driblar o seu ocaso terá que se deixar levar pela humildade, algo que ele ainda não sabe o que é.

Botafogo, campeão: milagre ou simplesmente competência?

O destaque da imprensa esportiva nesta segunda-feira é o título de campeão da Taça Guanabara conquistado pelo Botafogo depois de uma vitória por 2 a 0 sobre o Vasco da Gama. A cobertura e a crônica do jogo enaltecem, com doses bem fortes de misticismo, a reação botafoguense após a impiedosa goleada de 6 a 0 imposta há menos de um mês pelo mesmo adversário batido no domingo. Como em outros anos, todos se rendem a Joel Santana, que assumiu o comando do time logo depois daquele “chocolate” e, pelo menos na opinião de alguns, miraculosamente, num tempo bastante curto recuperou a auto-estima do grupo em frangalhos e deu um padrão tático para um time bastante limitado tecnicamente. Eis aí a grande questão: Papai Joel, como é carinhosamente chamado, fez milagre?
Não, Papai Joel não fez milagre. Não o fez porque, com todo respeito por quem acredita, milagres não existem. Também sua vitória não foi obra do acaso, da sorte. No futebol, assim como em outras atividades humanas, não há espaços para essas coisas. Quem recorre a elas para explicar algo assim busca esconder ou não consegue perceber que o sucesso é filho do mérito e da competência. E a vitória do Botafogo foi a vitória da competência, com todos os méritos. Joel Santana, como bem demonstrou em outros times, foi competente em motivar e conferir uma organização tática a um grupo desacreditado. Ciente da pouca qualidade que tinha em mãos, o experiente técnico preparou seu time visando anular com muita marcação as jogadas do adversário, se arriscando pouco para não dá asa ao erro, tão fatal em jogos eliminatórios.
Dificilmente, na hipótese de um campeonato de pontos corridos, o clube da Estrela Solitária seria campeão do Estadual do Rio. O atual grupo de jogadores está bem abaixo da capacidade dos elencos de Flamengo, Fluminense e Vasco. No entanto, em se tratando da fórmula adotada no Carioca, a possibilidade de um time inferior chegar ao topo é considerável, pois a fase do mata-mata abre espaço para o inusitado, em que o direito de errar já não é tão tolerado. Nos últimos anos, aproveitando essa possibilidade, as fases finais de turno do Estadual sempre contaram com um dos chamados pequenos.
Antes que um sapato vindo de General Severiano atinja a minha cabeça, devo me apressar para esclarecer que não considero o Botafogo um time pequeno, muito pelo contrário. O Botafogo segue sendo, como denuncia sua gloriosa história, um dos gigantes do futebol brasileiro. Acontece que pouco se pode esperar do plantel de jogadores que o clube dispõe no momento tomando por referência, claro, campeonatos mais competitivos. Isso é fato. Todos, torcida, comissão técnica e, principalmente, diretoria do Botafogo devem ter plena ciência disso.
Neste ano, não houve a surpresa de um pequeno chegar às semifinais, ao menos até aqui, mas não havia dúvidas entre os analistas esportivos de que, dos quatro grandes, o Botafogo era o menos atraente na bolsa de apostas. Nos três jogos decisivos que se sucederam Flamengo, Fluminense e Vasco não aproveitaram as inúmeras chances de gol criadas. Em suas partidas se apresentaram bem melhor que o adversário, mas foram incompetentes no quesito mais importante: finalizações. O Botafogo, não, competentemente motivado pelo Papai Joel, errou pouco e, nas poucas chances criadas, demonstrou muita competência em colocar as bolas na rede que lhe deram o título da Taça Guanabara.
Entretanto, depois da volta olímpica e dos merecidos rapapés, com direito a churrasco na laje, os botafoguenses não podem se deixar iludir. Desde ontem, tenho visto alguns jogadores campeões no domingo enfatizar que deu a volta por cima ou que o título seria uma resposta aos que duvidavam de seu valor — com poucas exceções, jogador que dá esse tipo de entrevista está num nível abaixo da mediocridade. Eis aí um grande perigo que sempre ronda os grandes clubes no Rio de Janeiro: achar que o título do Carioca é um atestado de força e capacidade de um elenco para vôos mais altos, como o Campeonato Brasileiro. Mas não é mesmo. O Flamengo, campeão carioca de 2009, só levantou a taça nacional porque teve a competência de se reforçar no segundo semestre. Do contrário, a tendência é lutar pra não ser rebaixado à Segunda Divisão. Com o Botafogo, há esse perigo. Sabendo disso e que nem sempre os balões soltados pelos seus zagueiros irão alcançar a cabeça do excelente “Loco” Abreu, Papai Joel, mal desceu as escadas que dão acesso aos vestiários do Maracanã, já começou a exigir da diretoria alvinegra os tão necessários reforços.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ao invés de tentar censurar a imprensa, o Sport tem que se preocupar é com a volta à Série A

Notícia do UOL Esporte de hoje (link) informa que o Sport Recife pretende entrar com uma ação cautelar contra a Rede Globo por esta considerar o título do Campeonato Brasileiro conquistado em 2009 como o hexacampeonato do Flamengo. O presidente do clube pernambucano, Silvio Guimarães, alega prejuízos materiais com a propagação daquilo que considera uma inverdade.
Bom, em primeiro lugar, não entendo por que o Sport pretende processar somente a Rede Globo, afinal, o rótulo de hexacampeão atribuído à equipe carioca é unanimidade entre todos os veículos da imprensa escrita e televisiva, sem contar boa parte dos blogs e sites esportivos mantidos por jornalistas e cronistas especializados em futebol.
Depois, essa intenção de calar a imprensa cheira a censura, algo que achávamos que tinha ficado prá trás depois da Constituição de 1988 e da revogação total da famigerada lei de imprensa. Mas não tem jeito, vira e mexe ela volta sob inúmeros pretextos, como foi o caso recente da censura ao jornal “O Estado de São Paulo” para proteger supostos direitos da família do atual presidente do Senado Federal.
Enfim, é uma bobagem. O que vale é a posição oficial da entidade máxima do futebol brasileiro, a CBF, que aclamou o Sport como o autêntico campeão de 1987, posteriormente confirmado pela Justiça comum. Posição esta assentada na recusa de Flamengo e Internacional, campeão e vice do Módulo Verde — apelidada na época de Copa União — em se confrontarem com o rubro-negro pernambucano e Guarani, campeão e vice do Módulo Amarelo, tal como havia sido acordado entre os clubes e a CBF.
O fato de a imprensa atribuir aquele campeonato ao Flamengo não muda em nada essa história. O Flamengo não é hexa, nem mesmo penta, já que suas conquistas se deram em anos intercalados e não consecutivos. É sim o atual campeão brasileiro e poderá ser bicampeão em fins deste ano ou repassar a faixa para o clube que ganhar o Brasileirão 2010. Em outro post pretendo discorrer um pouco mais sobre isto.
Os dirigentes do Sport Recife e seus torcedores deveriam se preocupar com outras coisas muito mais importantes para o futuro do clube, principalmente, com a formação de um time em condições de disputar a Série B do Brasileirão com chances de retornar à Série A.